Quando a
falência do Banco Santos foi decretada pela Justiça, em 20 de setembro de 2005,
a expectativa de recebimento de créditos pela massa falida era quase nula.
Exatamente seis anos depois, o cenário é bastante diverso. Já foram recuperados
mais de R$ 1 bilhão em ativos e realizados dois rateios entre os credores, no
valor total de R$ 760,5 milhões.
Embora a
dívida deixada pelo ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira ainda chegue a R$ 2,5
bilhões, há mais dinheiro a recuperar. E é nesse clima que deve ocorrer a segunda assembleia geral de credores do banco, marcada
para o dia 23 de novembro.

A assembleia
de credores do Banco Santos será realizada no auditório do Ministério Público
de São Paulo e o edital de convocação deve ser publicado em breve. Na pauta da
reunião está a deliberação dos 1.944 credores
quirografários (sem prioridade no recebimento) sobre a necessidade de
manutenção do comitê de credores e, em caso positivo, a eleição de um novo
representante. O atual, Jorge Queiroz, deixará o posto que ocupa
desde o início da falência. Os credores também terão que definir, na reunião,
qual será a remuneração passada de Queiroz, aprovada pela Justiça mas até hoje nunca definida, e a remuneração futura de seu
representante.
Após o término
da assembleia, será apresentada aos credores a proposta de criação de um fundo
de investimentos em direitos creditórios (FIDC) para reunir a carteira de
ativos do banco. A ideia foi aventada ainda em 2009 e desde então circula entre
grupos de credores, mas nunca havia sido formalmente apresentada. Na semana
passada, o escritório de advocacia Rosman, Penalva, Souza Leão, Franco
Advogados, que desenvolveu o projeto em conjunto com a gestora Cadence, anexou
o documento ao processo falimentar.
Pelo
regulamento proposto, o FIDC do Banco Santos reuniria todos os créditos da
massa falida - o que inclui tanto os valores já recuperados que ainda estão no
caixa da massa quanto os que ainda dependem de decisões judiciais para serem
efetivamente cobrados. Os cotistas do fundo seriam os credores, cujo número de
cotas equivalerá ao valor nominal de seus créditos.
A criação do
FIDC, no entanto, tem alguns entraves. O primeiro deles é o seu custo. Até
agora, o custo de recuperação de créditos da massa falida foi de cerca de 2,6%. Pelo regulamento do FIDC, os credores
pagariam R$ 2,8 milhões ao ano em taxas de gestão e administração, sem incluir
a taxa de performance do fundo, que varia conforme o
valor recuperado e o tempo de recuperação. O outro empecilho à implementação do FIDC é a transferência dos valores que a
massa falida tem em caixa ao fundo. "Esses bens não são direitos
creditórios", diz o promotor Eronides dos Santos, que acompanha o processo
falimentar. "Isso é inviável", afirma. Procurados pelo Valor, os advogados do Rosman,
Penalva, Souza Leão, Franco Advogados não retornaram até o fechamento desta
edição.
O FIDC surge
como uma alternativa para garantir maior agilidade à cobrança dos créditos e à
liquidação dos ativos do Banco Santos. Hoje a massa falida cobra na Justiça, em
centenas de processos, valores devidos por clientes ao banco que envolvem indenizações e operações de reciprocidade
envolvendo empresas não-financeiras de Edemar Cid Ferreira. A carteira de ações
judiciais, no entanto, é considerada podre. Em uma avaliação realizada pela
Directa e apresentada em maio do ano passado, dos R$ 3,29 bilhões cobrados dos
devedores em processos judiciais, seria possível arrecadar apenas R$ 277,68
milhões.
Ainda que
existam inúmeros processos de cobrança de créditos emperrados na Justiça e com
chances mínimas de recuperação, ainda há expectativas de que a massa falida
recupere valores significativos. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) deve
julgar em breve recursos contra decisões da primeira instância que determinaram
a extensão da falência do Banco Santos a algumas das demais empresas de Edemar
Cid Ferreira. Se a extensão for confirmada às empresas Atalanta, Finsec e Cid
Collection, entrarão no patrimônio da massa falida,
para serem leiloados, os imóveis e demais bens em nome delas. A Atalanta, por
exemplo, é a proprietária da mansão do ex-banqueiro no bairro do Morumbi. Com
cinco andares, um elevador, oito vagas de garagem e heliponto, a mansão está
avaliada em R$ 60 milhões. A Atalanta também é proprietária de diversos outros
imóveis bem localizados na capital paulista.
Outra frente
de recuperação de ativos aberta é a busca de ativos de Edemar Cid Ferreira e
das empresas abertas por ele no exterior, ainda em andamento. A massa falida
conseguiu que a Justiça dos Estados Unidos determinasse a extensão da falência
do Banco Santos naquele país, o que permitiu a busca de informações, documentos
e movimentações bancárias feitas pelo ex-banqueiro no exterior. Com isso, será
possível encontrar ativos que ainda não foram localizados e incrementar a
arrecadação da massa falida.